Relato de Parto: Nascimento da Maria

Nascentia Blog   •   Dezembro, 2016

Amaternidade nos proporciona várias experiências e lições. Talvez a principal delas seja a lição de humildade, que começa logo na gestação, quebrando nosso orgulho de achar que sabemos tudo e que temos controle de tudo, não é bem assim. O desejo de trazer minha filha ao mundo da forma mais natural possível exigiu mais do que um querer, foi preciso buscar muita informação e principalmente procurar profissionais humanizados em que eu confiasse. Encontrei uma equipe acolhedora e me entreguei à essas profissionais incríveis, as quais eu tenho enorme carinho e profundo sentimento de gratidão.

A ideia do parto normal veio com uma certa expectativa, “como seria?”. Eu tinha uma ideia vaga em mente, achava que passaria por todas as fases do parto progressivamente, que a enfermeira iria para minha casa me acompanhar antes de irmos para o hospital, que eu sentiria muita dor mas que trabalhando expiração e fazendo alguns movimentos suficientes para controlar e eu não gritaria. Li vários relatos de parto que me fortaleceram e cheguei a me emocionar em vários deles. Em muitos relatos, vi mulheres que se preparam para um parto natural domiciliar e acabaram em um normal hospitalar, outros foram para uma cesariana necessária. Algumas mulheres relataram pouca dor, outras recorreram a analgesia. Algumas entraram em trabalho de parto naturalmente e outras tiveram que induzir. Cada parto é diferente e cada mulher reage de uma forma tendo uma percepção muito pessoal desse processo tão belo que é o nascimento.

Refletia muito sobre os relatos que lia a fim de “estar preparada para todos os casos”, mas a verdade é que: ler a experiência de outras mulheres, estudar sobre parto e fazer o preparo físico me ajudaram muito, contudo, a vivência na carne superou. Imaginar o parto foi diferente de vivenciar. Para mim, o trabalho de parto foi muito intenso, um momento de muita conexão interior, uma tentativa de controlar os pensamentos e ao mesmo me entregar a tudo aquilo de novo que eu estava passando, uma parte de mim que eu desconhecida aflorou naquele processo e eu que cheguei a achar que não conseguiria me senti muito forte depois de tudo. Essa é a beleza do parto, ele é único! Mesmo que se tenha 2 ou mais filhos, a experiência do nascimento será diferente para cada um deles.

Quando a bolsa rompe, cerca de 95% das mulheres entram em trabalho de parto nas primeiras 24h, eu fiquei nos 5% que não entram. Tive que fazer uma indução e cerca de 11 horas depois minha filha nasceu. Passei o dia com contrações leves, mas quando o trabalho de parto resolveu dar o ar da graça, entrei em fase ativa, passei pela transição e cheguei ao expulsivo à galope. Naquela hora não lembrei de metade das posições que aprendi, não prestei atenção quantos minutos estavam durando minhas contrações nem de quanto em quantos tempo elas vinham, nem ao menos em que fase do trabalho de parto eu estava, porque foi tudo muito rápido. Perdi a noção de tempo e as duas horas que eu passei com contrações intensas, para mim, foram apenas alguns minutos. A dor foi intensa e eu berrei como se fosse uma leoa. O marido disse que desejava passar um pouco da dor que eu sentia para ele pois nunca tinha me visto daquele jeito. Ao mesmo tempo, quando tudo acabou, ele disse quão orgulho estava de mim e que eu era uma guerreira. Eu me senti mesmo muito feliz, foi tudo muito mais intenso do que eu esperava e transformador. Minha filha, Maria, simplesmente Maria, nasceu e um novo amor nasceu em mim.

O Parto:

Foi às 4:30h da madrugada do dia 19 de dezembro de 2016. Fui ao banheiro (com 37 semanas de gestação já era costume levantar algumas vezes para o xixi da madrugada), quando me levantei senti um líquido escorrer pelas pernas. Era pouco, apenas umas gotinhas. Achei estranho, cheguei a suspeitar que era a bolsa mas não tinha certeza, me sequei e voltei a dormir. 5:30h a mesma coisa, me levantei novamente e a mesma coisa aconteceu. Perdi o sono, preparei algo para comer e sentei para ler meu livro, aguardando pelo menos dar umas 6h para mandar mensagem para equipe. Consegui tirar mais um cochilo e quando acordei novamente já tinha uma resposta da minha enfermeira Marília perguntando se eu poderia ir ao consultório as 10h, de lá entraríamos em contato com minha obstetra Patrícia.

No consultório veio a constatação, minha bolsa de fato havia rompido. Uma ruptura alta, apenas 0,5 cm de dilatação, colo não favorável, pressão arterial boa, frequência cardíaca um tiquinho aumentada (isso foi depois da Marília dizer empolgada “ Eeeeehhh, Maria está chegando!!” …aí bateu uma ansiedade …hahaha). Os batimentos da Maria estavam bem e ela estava mexendo serelepe na minha barriga. Ligamos para a Patrícia e então fizemos a opção por aguardar entrar em trabalho de parto naturalmente, caso não entrasse, na manhã seguinte faríamos uma indução. Agendei para a mesma tarde uma sessão de acupuntura com minha outra enfermeira, Lissandra, saímos do consultório e fomos almoçar. Foi um almoço mexicano de comemoração à chegada da Maria, com direito a um churros delícia de sobremesa. Eu e Tiago (meu marido) estávamos bem tranquilos durante todo o processo, ligamos para nossos pais e avisamos alguns amigos do ocorrido, todos ficaram mais ansiosos do que a gente “Mas você não vai pra maternidade?”…. rsrs.

Essa condição gerou uma nova expectativa e essa espera fez com que tudo se tornasse mais especial: O almoço de comemoração, o livro que estava lendo, o filme que assisti, a acupuntura daquela tarde, a tapioca do final do dia, a finalização das malas, o abraço carinhoso do marido…..tudo especial. Na sessão de acupuntura, as agulhinhas e o moxabustão me fizeram dar uma relaxada. Escutar o coraçãozinho da minha filha batendo forte e saudável foi incrível, mesmo já tendo escutado ele nas consultas anteriores foi diferente a sensação nessa última, soou mais lindo!

De noite a Patrícia entrou em contato perguntando como eu estava. Eu tinha apenas uma colicazinha de leve, então confirmamos a indução para a manhã do dia seguinte, se eu sentisse alguma coisa na madrugada eu ligaria. Dormi bem e fomos para o consultório pela manhã. Sonda passada e balãozinho inflado no colo do útero, não demorou muito para que eu começasse a sentir que algo estava diferente. Antes de irmos para a maternidade passamos em casa para pegar nossas malas e no aeroporto para buscar meu pai. Como já era próximo da hora do almoço conversei com a Patrícia e paramos para comer algo antes da internação. Nessa altura uma das minhas amigas já estava surtando “vai pedir sobremesa e tomar um café também!?”..hahaha.
Nós e a Patrícia chegamos praticamente juntas na maternidade e após toda a papelada para internação, fui para o quarto de pré – parto. Após um banho e o antibiótico na veia, fiquei quietinha na cama, economizando energia para mais tarde. Com 3 cm de dilatação o balão saiu e Patrícia colocou um comprimido no colo do útero para prepara-lo.

A tarde passou, conversei, tentei dormir, comi um lanchinho, escutei música, a bolsa rompeu de vez, tomei mais um banho, Maria estava bem e eu também. Lissandra chegou no final do dia e como eu estava bem e meu quadro não havia mudado, Patrícia deu uma saída mas logo estaria de volta. Conversamos um pouco e então fiz acupuntura. Acho que foram as agulhinhas mágicas da Lis que dispararam o trem, porque pouco tempo depois o bicho começou a pegar.

Ao final da acupuntura eu estava bem relaxada e achei se seria bom dormir a fim de estar preparada para o trabalho de parto que viria mais tarde (era o que eu achava). O Tiago e meu pai aproveitaram e saíram para tomar um café. Antes de me deitar percebi que as contrações começaram a vir um pouco mais intensas. A Lis fez o monitoramento e disse que elas estavam “boas”……rsrs….. nesse momento duas enfermeiras da maternidade entraram no quarto para colocar a ocitocina prescrita (Já era 20h). Arregalei os olhos… afinal eu sabia que com a ocitocina o negócio ia pegar fogo. A Lis perguntou se eu queria esperar, eu disse que sim. Pedi por favor para não colocarem naquele momento. Mal sabíamos que em duas horas Maria estaria em meus braços.

Com as luzes apagadas me deitei de lado na maca e poucos minutos depois contrações começaram a vir um pouco mais fortes… a ponto de eu me encolher e as vezes soltar um gemido. Quando começou a ficar bem incomodo levantei da maca me inclinei sobre ela e comecei a mobilizar o quadril a fim de relaxar um pouco e aliviar a dor. A Lis ligou para o celular do Tiago, só que ele tinha deixado carregando no quarto, então pediu o celular do meu pai, mas eu nem conseguia pensar. Ela me perguntou se eu queria ir para o chuveiro, lá fui eu. Com pouca luminosidade, me sentei na bola e deixava a água quente cair sobre mim. A medida que a dor ficava mais intensa, passei de gemidos para uma “Aaahhhhh” e depois me entreguei aos “Aaaaahhhiiiiiiii”…..a oralização realmente me ajudava. Um tempinho depois o Tiago chegou. Me lembro de ter me virado e vê-lo entrando pela porta “Onde você tava?” e então dei um abraço forte me senti segura de ter ele ao meu lado. Foi assim durante todo o processo, ele ao meu lado me apoiando sem precisar falar nada, apenas estando presente com a mão sobre mim me passando segurança.

As contrações se intensificavam ainda mais e embora eu não estivesse no ápice da dor, perdi a noção de tempo. Não sei quanto tempo fiquei ali com a água caindo, eu não tinha ideia quanto tempo havia passado, mas num determinado momento eu quis sair do chuveiro, as contrações vinham cada vez mais fortes. Perguntei para Lis quanto tempo ia durar, mas não dava pra saber. Fui para a maca e ela então verificou minha dilatação, 7 cm.

Ainda com as luzes apagadas me virei na maca e fiquei na posição de quatro apoiando as mãos na cabeceira. As contrações estavam galopantes e eu gritava durante cada uma delas. Alguns momentos eu tentei segurar o grito, mas a Lis pedia “Oraliza…Oraliza” e nisso saía um berro. Entre uma contração e outra vinha uma sensação de relaxamento e conseguindo raciocinar pensava “ isso vai passar” “minha filha está chegando”. Olhava para a Lissandra e via a expressão tranquila e serena do seu rosto e isso me tranquilizava, eu sabia que estava tudo bem. O difícil foi o momento em que as contrações não davam trégua, estavam muito próximas uma da outra, eu sentia ela vindo forte e ao invés de parar ela só diminuía e voltava a ficar muito forte. Pela minha reação ela me perguntou se eu sentia o residual da contração, balancei a cabeça confirmando e nesse momento eu me acovardei e achei que não iria conseguir. Estando na “Partolândia” achava que tudo aquilo não tinha passado de uns 20 minutos e que iria ter ainda algumas horas pela frente, então pedi pela analgesia achando que não suportaria as horas com dor – eu não raciocinava direito. A Patrícia já estava a caminho (* no plano de parto eu havia conversado com ela para que não me oferecesse analgesia a não ser que eu pedisse).

Comecei a sentir os puxos, uma vontade incontrolável de evacuar, comecei a fazer força para baixo. Logo a Patrícia chegou, se posicionou ao meu lado e disse com uma voz tranquila para irmos para o centro cirúrgico. Eu não queria sair dali e para ser bem sincera não sei como desci da maca e fui para a cadeira de rodas. Quando chegamos na sala sentei na banqueta olhei para a Patrícia e disse que ia querer sim analgesia, mas nesse momento ela com um olhar carinhoso e um sorriso no rosto disse “Mas sua filha já estava vindo! Ela nasce antes do anestesista chegar!”. Um sentimento de alegria tomou conta de mim, estava perto do “grand finale”!

O Tiago sentou atrás de mim, encostei nele e tudo fluiu melhor…me entreguei. As contrações ainda eram bem doídas mas não pareciam mais tão insuportáveis, talvez pelo fato de eu saber que aquela era “a hora” que minha filha estava finalmente chegando, ou talvez tenha sido o palavrão que eu soltei naquele momento…rsrs…ainda assim eu gritava quando elas vinham. Em poucas contrações comecei a sentir o “círculo de fogo”… falei “ta nascendo..”… “tá, tá nascendo…quer sentir?”…. “não…” (tinha receio desse momento não sabia se iria assustar, travar…. inclusive havia conversado com a Patrícia sobre isso nas consultas)….. mas naquele momentos elas me incentivaram a tocar na cabecinha da minha filha saindo e isso me deu mais força e eu fiquei mais confiante! Vem filha! Vem filha! Algumas contrações Maria nasceu e veio para meus braços. As dores pararam e eu a vi pequenininha, linda, toda branquinha de vérnix e com o melhor cheiro do mundo. “Oi filhinha. Oi filhinha”. Maria fez um barulhinho como se fosse um fusquinha pegando no tranco e então veio o chorinho. Rolou aquela troca de olhares que eu nunca irei esquecer!!!

A emoção foi gigantesca nesse momento. Encostei a cabeça no Tiago com uma sensação de relaxamento um sentimento enorme de gratidão. Olhei para minha equipe querida e agradeci imensamente por elas estarem lá comigo e me ajudarem a trazer minha filha ao mundo. O cordão umbilical ainda pulsava fraquinho e Patrícia perguntou se eu queria sentir, uma sensação muito boa, só depois de alguns minutos é que o Tiago o cortou.

Enquanto Maria foi para as medições (o Tiago acompanhando tudo bem de pertinho) minha placenta saiu e eu fui levar uns pontinhos (lacerei um pouco). Minhas pernas tremiam incontrolavelmente na maca… acho que foi muita adrenalina…hahaha. Quando tudo passou, o sentimento de gratidão mal cabia em mim. Um rápido filme das últimas duas horas passou pela minha cabeça e eu disse para a Lissandra “eu achei que não ia aguentar” mas ela respondeu com um sorriso “eu sei que você achou isso, mas eu sabia que você ia dar conta!”. Ainda disse para a Patrícia “E eu que achava não ia gritar….” (cara de vergonha) ela deu risada “Eu também achava”…hahaha. Maria logo voltou para meus braços e num contato pele a pele consegui colocá-la no peito na primeira hora de vida. O processo do nascimento é incrível, transformador e vai muito além do físico. A experiência foi mais intensa do que eu imaginava. Ter o carinho e amparo do marido e da equipe foi fundamental.