Relato de Parto Ilustrado

Nascentia Blog   •   Abril, 2017

Médico Obstetra Bruno Ramalho
Enfermeiras Obstetras Letícia Nicolletti e Lissandra Martins Souza
Maternidade Brasília – Sala de parto humanizado.

Demorou. Foram mais de 7 meses tentando racionalizar o que foi aquele 4 de agosto para colocá-lo no papel. Várias versões da mesma história linda. E a verdade é que eu jamais vou conseguir racionalizar… é profundo demais… intenso demais… Às vezes penso que não seria necessário escrevê-lo, que eu ficasse apenas com a reverberação de tantas emoções, mas faço para encorajar mulheres – assim como fui encorajada com tantos relatos de parto. Isso nos fortalece! Nos ilumina!

Então vamos lá, vou fazer uma descrição do parto em si, lembrando que para que este acontecesse foi um longo caminho de luta permeado por anjos que apareceram pra mim, que me guiaram na realização desse sonho. Agradeço aqui minha amiga linda Carla Panetti (por todas as conversas sobre partos e conscientização de como nós devemos realmente receber nossos filhos, desde 2009, rs), Débora Amorim (por ter nos atendido e nos direcionado – sem querer e sem saber – a escolha de outro obstetra), Patrícia Oliveira (por ter nos atendido, me acolhido, tirado minhas angústias e nos indicado nossa obstetra), Dra Taciana Fontes Rolindo (pelo nosso incrível pré-natal e sua capacidade de nos colocar pra cima e nos apoiar sempre. Você foi um bálsamo em minha gravidez e serei eternamente grata a você! Inclusive por ter colocado o Dr. Bruno em nossas vidas, rs!). Equipe Nascentia – Letícia, Lissandra e Hellen (vocês mudaram a minha vida). Ao Dr Bruno (pelo amor com que maneja seu trabalho). A minha irmã, minha mãe e meu marido Daniel Jordão (eu jamais teria conseguido sem suas bênçãos). Gratidão eterna.

Era dia 3 de agosto quando comecei a sentir que alguma coisa estranha estava acontecendo. Com a barriga enorme e recomendações de muita caminhada saí com minha irmã. Estávamos fazendo as unhas quando senti a primeira cólica, era umas 15h30. Era cólica mesmo. Bem fraquinha. Nem comentei nada com minha irmã porque eu não acreditei que fosse alguma coisa. No dia seguinte estaríamos completando 40 semanas exatas – e é raríssimo um neném nascer em sua data provável, tinham me dito. Passamos o dia na rua. Andamos no shopping, levamos minha sobrinha ao dentista, jogamos Detetive. Já a noite as cólicas vinham progressivamente. Fui tentar dormir 00h, mas não consegui. Comecei a contar o intervalo das cólicas – estavam ritmadas. Ficamos eu e o marido, em plena madrugada, ouvindo música. Ele acendeu uma vela, fez sua reza. Mandamos mensagem para um casal de amigos que há pouco tempo tinham tido um bebê e lhes pedimos conexão e mais orações – estava chegando a hora. Não quis acordar ninguém (estávamos na casa da minha mãe). Era como se eu quisesse ficar só ali curtindo aquele momento só nós dois, aninhados. Fui ao banheiro umas três vezes (fiz muito cocô), era o corpo já me preparando. Por volta de 4h mandei mensagem pra Lissandra – acho que está acontecendo. Ela me pediu os intervalos, disse que estava de plantão e só sairia as 7h, mas que a Letícia poderia ir me ver. Como eu ainda não estava acreditando, disse que dava pra aguentar. Ela só respondeu que a Letícia estava indo me ver. Letícia chegou lá em casa por volta das 6h. Me olhou e disse: “então tem gente querendo aparecer?” E eu respondi: “Será?” Ela riu. Me examinou, escutou a barriga, contou o intervalo entre uma contração e outra (nessa hora já era contração, mas eu ainda sentia como uma cólica mais apertada). Ela disse: “O que acha da gente fazer um toque? Vamos esperar que você esteja sem dilatação nenhuma, porque se tiver estaremos no lucro!” Amei a estratégia! Deitei na cama e ela me explicou direitinho o que eu sentiria, já que eu nunca tinha passado por aquilo. Ela foi super delicada e rápida e eu só me apeguei aos “4 cm”! Sim! Estava acontecendo!! Por volta de 7h30 a Lissandra chegou lá em casa. Tive o privilégio de ter as duas ali abençoando nosso momento. Esperaríamos mais um tempo para irmos ao hospital. Letícia foi embora. Fomos tomar café da manhã. Não lembro o que eu comi, mas foi um momento muito gostoso. Meus pais, minha irmã, meu marido e minha EO, em volta da mesa, como um dia comum, jogando conversa fora, muito felizes.

Nesse meio tempo sabíamos que a cidade estava caótica – naquele dia teria um jogo do Brasil por conta das Olimpíadas. Lissandra nos deu uma apressada e já estava em contato com o Dr Bruno (médico que substituiria a Dra Taciana que, naquele dia, estava viajando).

Me despedi de todos em casa, muitos beijos, abraços e eu te amos, entramos no carro, eu, o marido e a Lis. O trajeto até a Maternidade Brasília foi terrível! A cidade estava toda fechada por conta do jogo e aonde não estava fechada estava engarrafada. Foram umas 6 ou 7 contrações no carro e uma angústia louca – “Eu deveria ter ficado em casa! Porque eu não quis um parto domiciliar?!” Marido nervoso no trânsito e a Lis me dizendo que já estávamos chegando. Quando chegamos, por volta de 8h45, o procedimento de entrada foi bem rápido, mas as contrações já vinham com mais força. O marido ficou arrumando a papelada, eu andando de um lado pro outro, quando vi o Dr Bruno. Ele me disse alguma coisa como “você vai entrar e sair dessa maternidade sem que eu precise fazer nenhum acesso em você.” Nossa, como foi bom ouvir aquilo! Todo a minha angústia de estar entrando em um hospital foi embora naquele momento. Era exatamente isso que eu queria! Fui com a Lis me preparar para a sala de parto humanizado. Fiz mais cocô antes de entrar. Rs! O marido nos encontrou lá dizendo que largou a papelada porque estava super nervoso, foi quando entramos na sala.

A Lis fez então um gesto que eu jamais vou esquecer, passou batom em mim e disse algo como: “não é porque está parindo que vai ficar sem batom.” Nunca disse isso a ela, mas aquele momento foi estupendamente fantástico – eu sou daquelas que só usa batom em dia de festa: e aquela seria a festa mais incrível da minha vida. Foi naquele instante que eu, por fim, me dei conta que iria dar a luz. Falei: “gente!! Eu vou parir!!” E a Lis olhou nos meus olhos e disse: “você já está parindo!” Minha irmã entrou na sala, minha mãe entrou na sala, nos abraçamos, nos beijamos. Elas foram fundamentais naqueles momentos. Minhas fortalezas! Com suas bençãos, dali em diante era hora de brincar (como diz meu marido). Rs!

Entrei na banheira, saí da banheira. Ouvimos música. Dançamos. Gritamos juntos. Balancei naqueles panos maravilhosos. Andei muito. Cada contração que passava eu pensava, menos uma, menos uma. Minha mãe nos pajeava da salinha ao lado da sala de parto (como se fosse uma sala de espera com uma grande janela). Minha irmã me massageava. Meu marido cantava coisas lindas, me incentivava, dançava ao meu ritmo, rezava. Se eu estava serena era porque ele estava na mais santa paz. Naturalmente ansioso eu jamais imaginei que ele fosse estar tão calmo naquele momento. Mas ele foi incrível. Pleno. Presente. Carinhoso. Em luz baixa as lembranças que tenho é de pura poesia. Eu jamais conseguiria descrever.

As contrações foram ficando mais intensas e nada da bolsa estourar. Dr Bruno, que me deixou livre o tempo todo (o vi muito pouco, na realidade, ele estava lá mas só se mostrava presente pra mim em momentos cruciais), me pediu para fazer um toque – assim saberíamos como estava o caminhar das coisas. Aproveitando uma contração, durante o toque, ele me diz que Ananda ainda estava alta e eu já estava com a dilatação bem avançada (nem lembro quanto) e por isso, seria interessante que a bolsa se rompesse para nos ajudar. Confesso que este foi o momento mais tenso do trabalho de parto. Eu não queria nenhuma intervenção. Mas estava aberta para abraçar as possibilidades. Era pra nos ajudar. Ele então disse uns termos técnicos pra Lis que, agarrada na minha mão e na minha barriga disse: “bebês empelicados são lindos, mas vai prolongar o processo em pelo menos mais 2 horas. O que você acha?” No nível em que estavam minhas contrações, depois de pelo menos 3 horas já na sala de parto, eu disse SIIIIMMM! Eles conversaram com meu marido, com minha mãe, me explicaram o procedimento e Dr Bruno carinhosamente e rapidamente fez a manobra aproveitando o toque e uma contração. A sensação daquele líquido quente saindo é muito boa! Alivia igual xixi! Rs!

Depois disso senti a Ananda mais baixa, a sensação da bolsa rompida, e é claro, contrações mais intensas!!! Pra ajudar a descida da Ananda, a Lis me deu uma lista de exercícios, acho que eram 5. E eu só sabia dizer a ela que não daria conta… rs! Na minha cabeça eu não estava dando conta nem de respirar mais… Não sei se fiz todos, mas foram alguns deitada, de quatro e o último eu teria que andar agachada pela sala. Juro que eu não sei como, mas eu consegui!!! Fico imaginando a cena… a pessoa peladona, agachada até o chão, dei uns 5 passos pra lá e pra cá. Eu já urrava pedindo ajuda, pedindo pra tomar “alguma coisa” (tínhamos um código pra quando eu quisesse anestesia eu teria que falar a palavra “anestesia”). Dr Bruno ria e me oferecia suco de caju. Lis fingia que não me escutava. Meu marido pedia pra eu respirar fundo. Senti uma vontade louca de fazer xixi, foi quando Dr Bruno me pediu pra que eu sentasse na banquetinha. “Pode fazer xixi aí!!” E eu, “Ai que nojeira”, só depois entendi que qualquer vontade fisiológica naquele momento é vontade de empurrar e a gente não sabe. Bendita banquetinha!!! O marido sentou atrás de mim, a Lis ficou do meu lado, Dr Bruno na minha frente, sentado naquela escadinha que a gente usa pra subir em cama de hospital, rs! Ele fez outro toque. Pediu pra eu me concentrar em empurrar. Naquela hora eu já dizia “acho que vou desmaiar! Não tenho forças! Não vou conseguir empurrar!!” A sensação era de que ia desfalecer mesmo. O corpo já não obedecia mais. Chorava muito! A Liz pegou na minha mão, olhou nos olhos e disse “você não é uma bonequinha de porcelana! Você é uma mulher! Eu já passei por isso, é assim mesmo e você vai conseguir! Se joga desse penhasco!!”

A sensação de ter a Ananda na pelve foi a mais forte! Me abrindo inteira!! Lembro muito da música Bem vindo meu novo ser, da playlist da Lis. Pode ser clichê, mas essa música é poderosa!!! Foi naquele momento que eu realmente me despedia de tudo que já tinha sido. Pronta pra pegar aquela nova vida pelas mãos… Chorei horrores, pronta para aquela passagem, aquele portal mágico. Dr Bruno pedia pra eu relaxar durante as contrações e ir dar uma volta na partolândia. Eu deitava nos ombros do Daniel e me entregava aquela magnífica sensação (partolândia é vida!) – era quase como um sonho, ir ao céu e voltar pra empurrar. Foi quando veio o círculo de fogo! Que é bem o que o nome diz mesmo! Eu puxava o cabelo do marido que tentava me acalmar. Nesse momento minha irmã grita: “Cami, ela é cabeluda!!! Vai!! Força, garra, determinação!!!” E na próxima contração, eu senti a cabeça dela entrando novamente… Olhei pro Dr Bruno e gritei: “Ela tá voltando!!! Me ajudaaaa!!!” E foi o tempo da próxima contração – força, muita força, uma força sobrenatural e eu solto um belo palavrão enquanto sinto o corpinho da minha pequena saindo de dentro de mim! Não há sensação mais incrível nesse mundo!!! Ela veio quentinha pros meus braços, chorando forte!! O cheiro do vérnix é o melhor cheiro do mundo!!! E ficamos eu, Daniel e ela abraçados, chorando… Minha mãe entrou na sala, chorando muito, nos abraçou! Minha irmã nos abraçou! Era aquilo o que eu queria: que Ananda fosse recebida de forma plena, rodeada de amor, de calor, de emoção!!! Cordão parou de pulsar, marido cortou com ela ainda no meu colo.

O pediatra (que já estava enchendo o saco no expulsivo) a pegou e Daniel foi acompanhar os procedimentos. Exigimos que só fizessem a vitamina K (Daniel precisou assinar um documento falando da recusa do nitrato de prata). Me levantei da banqueta, minhas pernas tremiam muito!! Eu ria e chorava! Dr Bruno me acompanhou até a cama pra o nascimento da placenta. A placenta veio logo em seguida, belíssima!!! Me arrependi de não ter me preparado pra fazer alguma coisa com ela. A reverenciei. Dr Bruno me parabenizou e disse que havia uma laceração pequena, de grau 1. “Não vou dar ponto! Em 3 dias ela fecha.” Outro grande alívio. E logo minha pequena já estava no meu colo. Liz colocou ela pra amamentar, mas ela não pegou de primeira. Me ensinou alguns truques. Me falou sobre exterogestação e a hora de ouro. Então ficamos ali, agarradinhos na minha pequena, enquanto aos poucos a ficha caía de que ela já estava ali…

Da minha experiência, que eu conto pra dar força às mamães que pensam sobre um parto com intervenções mínimas eu só digo: “não há nada melhor no mundo!” Nosso corpo foi feito pra isso e é sim uma passagem! Muitas feridas minhas se curaram naquelas horas. A certeza de poder trazer ao mundo esse grande espírito de luz que nos escolheu da forma mais honrosa, calorosa, amorosa do mundo. Sem medo, sem dor, sem sofrimento. Não foi por mim, não foi por ativismo, não foi por moda, foi por minha filha. Esse ser encantado da nova era! Lute pelo seu parto!!! Vale tudo!

Por |2017-06-07T22:22:08+00:007 de abril de 2017|Relato de Parto|