Relato de Parto da Cássia

Nascentia   •   abril, 2017

Meu parto começou numa terça feira (25/4), numa ecografia de rotina de 38 semanas de gestação. Até então, minha gestação era tranquila, sem nenhuma alteração ou indisposição. Aquela ecografia mudou tudo. A amável Dra Carolina Amorim, identificou que Gabriel não estava ganhando peso, mas não havia nenhum sinal de sofrimento fetal. Levei um baita susto, pois estava começando a curtir um pouco mais minha barrigona, afinal, trabalhei até onde pude, me sentia bem. Tinha várias coisas engatilhadas para arrumar e esperar sua chegada. A Dra disse que precisávamos repetir o exame na sexta (28/4) e talvez interromper a gestação enquanto estava tudo bem comigo e com Gabriel. Em nenhum momento foi citado cesariana ou acabar com os planos de um início de trabalho de parto em casa e depois ir para o hospital como planejado previamente.
Obviamente, apesar da delicadeza, fiquei tensa a semana toda, meu marido presente, minha mãe chegou de SC, minha irmã veio me apoiar, enfim tudo estava se organizando. Mas, dentro de mim, um turbilhão de emoções, ao mesmo tempo ansiedade para ver o rostinho do meu filho, mas também queria que o tempo parasse um pouquinho para curtir um pouco mais a gestação. Naquele momento inconscientemente, estava iniciando meu processo transformador de energia, de doação, de dor, de amor, de empoderamento como mulher, animal.
Naquela sexta, repetimos os exames e o veredito…Gabriel estava dando sinais que precisávamos auxiliá-lo a vir ao mundo antes do tempo. Iniciei a indução com estimulação do colo uterino e com balão. Minha enfermeira maravilhosa e certeira Marília, conversou bastante comigo, preparando-me para a indução (a minha ficha é que não tinha caído). Vim para casa já com cólicas e algumas contrações. Entrei num processo de introspecção e tentei canalizar minhas energias para o que estava por vir. Sentia os olhares ansiosos ao meu redor, mas estava centrada em mim e no Gabriel. Revisei com calma minha mala, a do Gabriel e ao chegar da noite os desconfortos aumentaram. Eram cólicas bem fortes e contrações. Aquele balão incomodando e sangrando. Passei assim por algumas horas. Tomei um banho com auxílio do meu marido, pois as dores estavam intensas. Achamos que o trabalho de parto engrenaria em pouco tempo. Vomitei de dor. Meu corpo abruptamente estava preparando-se, limpando-se para a grande hora. Marília avisada. Depois do banho, fiquei offline. Dormi profundamente. Acordei na madrugada e preocupei-me em não sentir o Gabriel mexer. Ele ficou quietinho a madrugada toda. Acredito que também estava descansando para o grande dia.
Ao longo do sábado, passei tranquila. Amanheci disposta, reguei minhas plantinhas, passei o dia com a família e.…nada, tudo esfriou. Mantendo o dia todo contato com a Dra Carolina e Marília, decidimos que iriamos para o hospital no final do dia. Dra Carolina ao final da tarde passou em minha casa, avaliou-me, o balão saiu, estava com 2-3 cm de dilatação. Fiquei animada pois já estava dilatando e me sentindo ótima. A noite fomos para o hospital. A sensação de pegar as malas em casa, chegar no hospital sem trabalho de parto ativo, fazer a internação na secretaria, esperar as burocracias para depois descer para a sala de parto humanizado…hoje vejo que isso me travou. Por mais que não devêssemos projetar nosso parto, não fazia ideia que seria assim. Achava que ficaria em casa, chegaria no hospital com aqueles gritos a cada contração, ganharia o bebê na banheira ou sentada (não sei porquê). Enfim, a natureza é tão poderosa e Deus é tão soberano que ficamos “no chinelo” com nossos desejos e planos.
Consegui a tão desejada sala de parto humanizado. Oi? Quando entrei, tive que colocar o avental, touca, pró-pé…ai que coisa de hospital…fiz questão de colocar minha meia de Pilates. Mesmo assim estava centrada e focada no Gabriel. Chegaram os enfermeiros, me colocaram acesso, iniciamos a ocitocina, era em torno de 22h….tudo tão frio…não pelos profissionais que estavam cuidando de mim…mas pelo momento…iniciar assim….do zero…..O tempo foi passando e as contrações ora ali, outra aqui. Aos poucos a dose de ocitocina aumentando, contrações ali…contrações aqui….e comecei a perder o foco. Ficava olhando ao meu redor…aquele ambiente frio, as pessoas ao meu redor esperando que algo acontecesse…e dependia do meu corpo responder, mas sentia que ele não estava pronto (ou eu queria que não estivesse). As horas continuavam a passar, a ocitocina aumentando e as contrações fortes começaram a chegar. Fui para a bola, caminhei, voltei pra bola e as pessoas continuavam me olhando…comecei a escutar choros de bebê. Eu pensei que naquela madrugada tinham nascido umas 20 crianças, mas Marília me disse que foram provavelmente umas 5. Naquela altura eu já estava meio fora do ar….me perdi no tempo e minha memória ainda volta com fleches a partir daí. Lembro-me de estar muito incomodada, principalmente com os toques. Eram muito doloridos para mim. O Gabriel e eu o tempo todo monitorados pela Marília e pela Dra Carolina. Confio muito nelas, sei que não deixariam nada acontecer conosco. Mas as horas foram passando e o trabalho de parto não evoluía. A Dra então em um dos toques rompeu minha bolsa. Levei um susto, aquele liquido quentinho saindo de dentro de mim…parecia tão confortável lá dentro. Pedi para ir a banheira, fiquei recebendo ducha do meu marido e da Marília por bastante tempo. Aquela água quentinha ajudou a conectar-me novamente. Percebi que estava muito cansada e com dor. Tremia muito e precisava de algum auxílio. Foi quando a Dra Carolina me disse que precisava me avaliar novamente. Toque? Nãoooo, tudo menos isso…vi no olhar dela para mim que se pudesse não o faria, mas era preciso. Gabriel me veio à mente. Vamos lá. Deitei na cama e ao final da avaliação ainda estava com 5 de dilatação. Era passada das 8h da manhã. Estava muito cansada, com muita dor, com frio…e com 5 de dilatação…decidi que queria analgesia. Minha irmã e meu marido preocupados, pois minutos antes eu quase desmaiei. Eles ficaram o tempo todo ao meu lado e isso foi fundamental para mim. Mas não tinham muito o que fazer. Enfim, eu que morro de medo de agulha, não senti absolutamente nada na aplicação da analgesia. Me deitaram novamente, cobriram-me. Me deixaram descansar. Era tudo que eu queria e precisava. Naquele momento, tinha consciência do quão exausta estava e que eu precisava reunir forças para a continuidade do parto. Concentrei-me e orei. Pedi a Deus, ao meu anjo da guarda e do Gabriel e aos espíritos de luz que nos acompanham a darem-nos forças e nos auxiliarem. Senti um acalento e senti as luzes da sala se ascenderem. Não sei se terminei a oração. Adormeci. Acho que entrei em transe. Achei que tinha dormido uns 5 minutinhos, mas na verdade foram 20 minutos. Marília veio monitorar o bebê e logo saiu da sala. Rapidamente Dra Carolina chegou e disse que precisava me examinar. Eu não conseguia pensar, só falei ok. Ela fez o toque e….tá nascendo!!!! Hã??? Como assim??? Meu marido e minha irmã vieram correndo, Marilia a postos ao meu lado, Dra preparando, meu Deus….a emoção transbordou. Não acreditava que estava nascendo. Dilatei 5 cm em 20 minutos. Como assim? Chorei. Deixei vir a emoção e num passe de mágica reconectei-me. Os puxos vieram e senti cada movimento. Senti Gabriel descendo. Felipe e Marília me segurando e me ajudando nas contrações. Dra Carolina me auxiliando verbalmente. Minha irmã ao meu lado incentivando. Foram poucas contrações. Gabriel veio ao mundo às 10:51h. Chorei. Chorei por ter conseguido, chorei por exaustão, chorei pelo amor ao meu redor, chorei por Deus me proporcionar uma sensação única e indescritível. Meu filho, meu Gabriel estava em meus braços. Tão pequenino e tão forte. Apesar das curvas fora da rota, consegui ter meu parto normal. Sem lacerações. Com analgesia sim. E muito bem-vinda. Todos respeitando da melhor forma meu tempo, meu jeito. Como somos pequeninos em meio a mãe natureza e como ela é perfeita. Somos tão bicho, quanto os “animais”, que lambem suas crias em sua chegada. Na mesma hora, o colostro…outra dádiva. Em questão de minutos, meu filho saiu de dentro do meu útero e já está mamando em meu peito. E me olha. Ah, o olhar…se isso não é um milagre, o que será?
Me faltam palavras para agradecer a toda a equipe que esteve ao meu lado, apoiando-me para ter o meu momento. Sem vocês não seria possível. Virei leoa, virei mãe!!!
PS:
fiquei sabendo alguns dias depois que as luzes da sala não acenderam…
relato do puerpério será em outro post…

Relato de Parto: 30/4/17
Obstetra: Dra Carolina Amorim
Enf. obstétrica: Marília Borges
Equipe Nascentia

Por |2018-07-27T13:15:11+00:0017 de abril de 2017|Relato de Parto|