Relato de Parto da Ana Nira

11/10/2016. Crédito: Minervino Junior/CB/D.A Press. Brasil. Brasília – DF. Plano de parto. Ana Nira, gravida de 9 meses.

A minha gravidez não foi planejada, porém passado o susto inicial foi  maravilhoso estar vivendo aquilo. Hoje fico feliz e agradecida pelas coisas  terem acontecido desta forma, pois acho que se fosse planejar talvez não fosse  ter nunca.
Foram muitas mudanças e desafios, mas amei estar grávida. ​Não tive  sangramentos nem cólicas, senti poucos enjoos, somente pela manhã, dormia   bem mas acordava muito para fazer xixi, e perdia o sono às 4h da manhã. Meu corpo passou a estalar, mais para o final senti muita azia e o calor era  insuportável. Durante um período fiz hidroginástica, foi bom fazer exercícios, mas o melhor foi a convivência com outras mães e as amizades que ficaram depois. ​Nesta caminhada sempre recebi muito carinho e apoio do pai do Francisco, da família e dos amigos. Tivemos 3 chás de bebe, todos surpresa. É  uma delícia todo o cuidado que as pessoas têm com mulher grávida.
Desde sempre soube que queria ter PN, comecei o pré-natal e os exames   sempre estavam ótimos. Foi quando que na morfológica do 2o trimestre  apareceu que eu tinha placenta prévia marginal. Em conversa com o meu 1o obstetra não senti apoio, ele apenas me receitou repouso parcial, suspendeu   atividades físicas, sexo, e disse que eu precisaria de uma cesárea se a   placenta não subisse 4 cm, e logo me pôs para fora do consultório. Ele atende    muitas grávidas por dia e as consultas eram sempre bastante rápidas e  superficiais. Não me passou dados, estatísticas sobre meu caso, ou sequer  mencionou que eu poderia na pior das hipóteses fazer uma cesárea intraparto  em vez agendar. Isso somado ao fato que ele responde dúvidas apenas por  e-mail e eu já havia mandado duas vezes, sem nenhuma resposta. Fiquei    arrasada, mas não me conformei. Saí em busca de informação, de apoio, e de    outras opiniões médicas. Senti que neste momento aquele profissional não me   servia mais e eu precisava de um atendimento mais personalizado.
Logo eu, que mesmo querendo um PN, achava um modismo essa história de   humanização. E ficava indignada pensando que isso tudo era somente um  grande comércio, pois não tinha médico que fizesse PN no plano de saúde,     ainda ia precisar contratar doula, EO, curso de preparação, fisioterapia pélvica.    Achava tudo um exagero… até eu me ver nesta situação em que eu precisava   de orientação e acolhimento de profissionais atualizados, humanizados e sim  bem remunerados.
Foi quando conheci a equipe Nascentia e me senti muito acolhida. Meu   obstetra foi o Dr. Luiz Fernando Petruce, que logo de cara trouxe informações    atualizadas sobre meu caso, e com seu jeito pragmático e cheio de empatia,    me passou muita tranquilidade e segurança. No início achei ele jovem demais,   mas isso não foi sinônimo de desconhecimento e inexperiência, muito pelo    contrário, seus posicionamentos e condutas sempre foram assertivos. Segundo ele e outra médica que consultei, a literatura exigia apenas 2 cm de distância    do colo do útero. Com o avançar da gestação e algumas ultras depois minha  placenta atingiu a distância necessária e este não foi mais um problema. Senti  imensa alegria e alívio, mas que não duraram muito, pois outro desafio surgira: Francisco estava pélvico.
 Mais uma vez minha equipe me assistiu de todas as formas, inclusive emocionalmente e no controle da minha ansiedade. Na Nascentia as consultas são alternadas com a EO, e a maravilhosa Lissandra fez acupuntura em mim,   fiz os exercícios recomendados, segui várias dicas, mas infelizmente nada dele  virar. Neste ínterim, ela também acompanhava meu mapa diário de peso e pressão. Eles me conheciam, sabiam das minhas condições e dos resultados   dos meus exames, e isso sempre foi um conforto para mim. Os atendimentos   demoravam o tempo necessário, e em uma conversa muito franca e calma, Dr.  Luiz expôs todas as minhas opções, riscos e benefícios envolvidos. Eu não bancaria um PN pélvico, e às 37 semanas optei por fazer a VCE. Não foi fácil   tomar esta decisão, pois minha mãe e o pai do Francisco ficaram bastante  receosos, ou seja, qualquer intercorrência seria minha responsabilidade. Mas eu sei que estava em ótimas mãos, me internei no hospital, tudo monitorado    e a manobra foi um sucesso. Foi na 1a tentativa, eu não senti dor e os  batimentos do Francisco logo se estabilizaram. Nenhuma palavra poderia  descrever a intensidade da minha felicidade, e a gratidão a Deus por estar me  permitindo ter um PN. ​Nos dias seguintes fiquei bastante tensa achando que   ele poderia desvirar, mas Lissandra me disse que se ele desvirasse, era a  vontade dele, e eu aceitei isso. Desencanei e fui curtir as últimas semanas de gravidez.

Com o Francisco cefálico fui fazer fisioterapia pélvica para me auxiliar no   momento do parto. Minha fisioterapeuta foi a Luciana, da Ampiezza. Muitas   pessoas perguntavam por ele, via que todos iam ficando cada

vez mais  ansiosos, mas encarei aquilo como muito carinho por mim e meu bebê e as  perguntas repetitivas e comentários não me incomodaram. Trabalhei até na    semana que ele nasceu, e como eu ainda estava muito ligada no trabalho nem  tinha pressa que ele chegasse logo. De pensar que dali alguns dias ele estaria  ao meu lado, virando meu mundo de cabeça para baixo, me dava um certo  medo. Então na reta final passei a conversar mais com ele e falar para ele vir, e se desse medo, que viesse com medo mesmo. Que a gente já tinha passado    por tantos desafios, e que a gente também ia vencer esse. Foi quando que  durante uma sessão de fisioterapia meu tampão começou a sair, era segunda  10/10, minha DPP.

Além do tampão não havia mais nenhum sinalzinho do meu pequeno, não  sentia nada, nem contração de treinamento, nem pródomos. Então vida que segue. Na terça fui fazer umas fotos, dirigi, vi uma coisa aqui, outra ali. Na madrugada do dia 13 de outubro fui ao banheiro fazer xixi. Era por volta de 4h  e percebo que minha calcinha estava bastante úmida. Fiquei na dúvida se era urina ou a bolsa que tinha rompido. Cheirei e não tinha cheiro de nada. Me   deitei e vi que o líquido às vezes voltava a escapar. Resolvi levantar e escorreu   um pouco pelas minhas pernas. Nessa hora tive certeza que era mais que uma   incontinência, acordei o Charles, pai do Francisco, e conversei com a minha  EO, que logo me respondeu que possivelmente minha bolsa tinha rompido sim.  Me orientou a tentar voltar a dormir e ir ao consultório na manhã seguinte.
Incrivelmente consegui cochilar e quando amanheceu fomos ao encontro do Dr. Luiz. Fizemos os exames, e estava tudo bem conosco. O CTG mostrou que    eu já estava tendo contrações, apesar de não estar sentindo nada, e no toque   eu já estava com 2 cm de dilatação. Fui para casa e comecei a sentir cólicas  como de menstruação. Almocei, cuidei da minha gatinha, tentei ver algo no  Netflix, e logo não conseguia mais ficar deitada muito tempo na mesma    posição. Charles me acompanhou o dia todo e foi super atencioso. Minha    amiga Giovanna, que me acompanhou e fotografou durante toda a gestação  chegou no início da noite. Ambos, além de minha amada mamãe, se  revezavam para me massagear, fazer compressa quente na lombar e atender   minhas necessidades. Não consegui comer, mas bebi bastante Gatorade   geladinho. Até meu cabelo foi escovado a meu pedido, que doce ilusão rs, logo ficou suado, molhado e embaraçado. Fui aos poucos achando a posição que  me deixava mais confortável durante a contração e era sempre curvada para    frente, de preferência na bola de pilates, mas a essa altura já sentia bastante   incômodo. Quando a coisa apertava mesmo eu ia para o chuveiro e a água  quente nas costas aliviava muito. Fomos acompanhando minha temperatura e  contrações pelo aplicativo do celular e conversando com a Lissandra e o Luiz.  Havia uma preocupação a mais pelo fato de eu estar de bolsa rota. Outros    profissionais já teriam me internado, induzido meu parto ou me passado  antibióticos. Como eu havia feito cultura vaginal para strepto e deu negativo, os   protocolos mais atualizados indicavam que ainda tínhamos algumas horas sem   intervenções, e meu trabalho de parto parecia estar evoluindo bem.
A uma certa altura eu já não conseguia falar com a enfermeira, estava doendo   bastante e precisava me concentrar nas contrações, então a Giovanna assumiu    essa tarefa. Lembro que eu vocalizei muito para me aliviar e me conectar, eu já   estava entrando na partolândia e passava a maior parte do tempo de olhos   fechados. É uma sensação muito diferente, como estar embriagada, mas a   gente sabe tudo o que está acontecendo.
Decidi que eu ia aguentar o máximo que conseguisse em casa, e por volta das  23h cheguei no meu limite e pedi para que a enfermeira viesse me ver. Ela  prontamente veio ao meu encontro e quando a vi fiquei muito emocionada. Ela  nos avaliou e resolvemos fazer um toque, e para a alegria de todos estávamos ótimos e eu já estava com 8 cm de dilatação. Foi tão bom receber essa notícia    que eu que me encontrava tão cansada até fiz uma dancinha rs. Mas não havia  tempo para brincadeiras, vi no rosto dela também certa preocupação para que fossemos logo para a maternidade, pois o caminho era longo e o parto se    aproximava. Não esperamos nem a próxima contração, pegamos tudo e  partimos. Nessa hora lembro de ter tido uma contração na porta de casa, eu    agachada e vocalizando alto para a vizinhança depois de 00h rs.
O caminho para a maternidade foi horroroso, eu fui na posição de quatro   apoios no banco de trás com a Lissandra, pois já não conseguia sentar, e cada  lombadinha doía que eu via estrelas. Abri os olhos apenas uma vez durante o  caminho e procurei ao máximo não perder a concentração, mas pareceu uma   eternidade. Quando finalmente chegamos ainda havia a burocracia do hospital,  mas que logo foi resolvida. Dr. Luiz chegou uns 5 minutos depois de nós, ele foi  me ver agachada na recepção, com dor, vocalizando, e fez um afago na minha  cabeça. Deu muita paz no coração vê-lo.
Para minha sorte a sala de parto humanizado estava disponível e seguimos para lá. Foi dos melhores investimentos que já fiz, pois usei tudo que tinha lá,   além da minha mãe, o Charles e equipe poderem estar comigo tranquilamente!    Usei a cama, a bola de pilates, caminhei, entrei na banheira. Fica escurinho, e   tem música, mas no meu caso, qualquer ruído me incomodava, pedi para tirar   a música e as pessoas presentes fizeram o mínimo de barulho.
Chegou um momento que o Dr. Luiz fez um toque, eu estava com 10 cm de   dilatação, no entanto, pediu que eu mudasse um pouco de posição, evitando   ficar muito curvada, pois estava com o colo do útero um pouco inchado. Doía  demais qualquer outra posição, mas me esforcei. Para aliviar entrei na    banheira, mas já estava exausta, e logo depois pedi anestesia. Conforme  combinado com o Luiz durante consultas, ele ignorou meu pedido, pois ele   também sabia que estávamos bem e eu podia mais um pouco. Combinamos  que eu teria que pedir 3 vezes, e na terceira vez ele me atendeu. Explicou com   atenção (e demoradamente rs) tudo o que uma anestesia àquela altura poderia  acarretar, mas eu não aguentava mais sentir toda aquela dor e quis prosseguir    com o procedimento. Ele solicitou o anestesista de plantão, que simplesmente   era um dos donos da maternidade, e ainda estava dormindo. Tudo foi  preparado e quando finalmente acenderam as luzes Lissandra veio falar  comigo uma última vez. Disse que estava tudo pronto, mas que se eu não   quisesse eu não precisava tomar, que estávamos quase lá, que estávamos    indo muito bem. Foi quando eu senti meu 1º puxo, uma enorme vontade de   fazer força! Eu não estava mais sentindo dor de forma inerte, pois quando a   contração vinha, me trazia alívio fazer força. Ademais, eu também pude voltar   para a minha posição de 4 apoios. Optei por não tomar anestesia, e Dr. Luiz e Lissandra foram incríveis me   apoiando, mesmo com aquele desconforto profissional por ter solicitado e estar  tudo pronto.
Segui o expulsivo na banheira, que depois eu soube demorou uns 40 minutos,     mas na minha cabeça foi muito mais, devido ao cansaço. ​Achei que a  fisioterapia pélvica me ajudou bastante na percepção do bebê no canal vaginal, em alguns momentos do parto lembrei da sensação do epi-no. ​A contração    vinha, eu fazia força, e teve cocô sim! Mas nada me constrangia, vocalizei alto, fiquei só de top, eu me libertei, era o meu momento e era lindo! Devido à água  quente, fui ficando muito relaxada, e as contrações menos intensas e mais  espaçadas. Dr. Luiz me explicou que eu precisava sair da banheira para o parto acontecer, então me ampararam e fui para a banqueta, com o Charles  atrás. Quase que imediatamente as contrações vieram com força total! Imagino  que o parto também seja um grande desafio para o bebê, e​Francisco já estava  ali, nessa hora a força vem sei lá de onde. E primeiro saiu metade da cabeça,   depois a outra metade, e por último o ombro. ​Tenho muito orgulho de nós, por  termos conseguido, foi perfeito! ​Ele nasceu às 3h43 com uma circular de  cordão, chorou, e veio direto para os meus braços. Eu olhei para ele atentamente, como eu quis ver aquele rostinho. Como é indescritível a emoção  deste momento e todas as vezes que eu relembrar vou me emocionar  profundamente. Parir é realmente transformador.
Fiquei com ele no colo curtindo por vários minutos e a pediatra o levou para os   procedimentos. Foi pedido que não usassem o colírio e fomos atendidos.  Enquanto isso eu expelia a minha placenta, que depois pedi para desidratar e    encapsular. Não tive laceração, porém tive um sangramento significativo e  tomei ocitocina na coxa, e logo tudo se normalizou. Francisco voltou para os meus braços, tinha 46 cm, 2.840g, mamou no meu seio ainda na 1ª hora de  vida e desde então não desgrudei mais dele.
Por fim, Dr. Luiz e Lissandra foram extremamente atenciosos, meu parto foi  assistido com toda calma, paciência e com total entendimento das minhas  necessidades e do Francisco. Sei que eles foram determinantes para que o   meu parto fosse das experiências mais incríveis da minha vida e quando penso  neles meu coração inunda de gratidão. Muitas vezes não vemos, mas são profissionais que também enfrentam dificuldades diariamente com demais  colegas e instituições, para serem respeitados e para que possam exercer suas   profissões da forma que acreditam ser melhor para nós e nossos bebês. Tenho o nome e a foto deles no Livro do Bebê, de tão especiais que eles são para    mim. Também acho que a equipe pratica um preço justo, tendo vários tipos de pacotes e opções de pagamento, e hoje Francisco também é um bebê   Nascentia no programa de pediatria e estamos muito satisfeitos.
Minha total gratidão à minha mãezinha, minha fortaleza, meu porto seguro,   meu tudo, que com sua fé e força inabaláveis nunca nesta vida deixou a peteca cair, te amo mais que o infinito! Ao meu companheiro Charles, mal nos  conhecíamos quando engravidei, porém, desde o positivo ele foi assertivo,    compreensivo, carinhoso e atencioso, me trazendo toda a clareza e segurança que eu precisava. Obrigada por me dar meu maior tesouro! E aos amigos e   família, que sempre por perto tornaram tudo mais leve e divertido.
Algumas considerações importantes: 1) ​Me arrependo de não ter tirado mais    fotos ou contratado um fotógrafo para ter todos os momentos do parto  registrados não somente na memória. 2) Não tive uma doula, e sei que não  substitui, mas devido à enorme rede de apoio que tive fiz esta escolha. Nesta  minha jornada conheci mulheres incríveis em rodas e o trabalho delas é maravilhoso. Muita gratidão ao grupo do Facebook Doulas de Brasília, que é um mar de informações e com certeza faz a diferença na vida de muitas  mulheres. 3) Também deveria ter me preparado melhor para a amamentação,  pois tive enorme dificuldade, enfrentei todo tipo de problema até o Francisco completar 3 meses, e se não fosse novamente a busca por informações de  qualidade e a rede de apoio não teria conseguido.
Ana Nira
Ana Nira participou de uma matéria no Correio Brasiliense. Vejam as fotos:

11/10/2016. Crédito: Minervino Junior/CB/D.A Press. Brasil. Brasília – DF. Plano de parto. Ana Neira, gravida de 9 meses.

11/10/2016. Crédito: Minervino Junior/CB/D.A Press. Brasil. Brasília – DF. Plano de parto. Ana Neira, gravida de 9 meses, ao lado de Lissandra Martins e Leticia Nicolletti.

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