Regulação emocional no parto e assistência natural

Entenda por que as contrações são vivenciadas de formas diferentes e conheça sinais de regulação do sistema nervoso e estratégias de assistência ao parto para favorecer o trabalho de parto natural e uma experiência positiva.

PARA PROFISSIONAIS DA ASSISTÊNCIA AO PARTO

Lissandra Martins

11/4/20264 min read

Duas mulheres, mesma dilatação, contrações de intensidade parecida. Uma vocaliza, se solta entre as ondas e segue. A outra perde as pausas, não tolera o toque e pede analgesia. Em muitos serviços, a resposta é a mesma para as duas: mais recursos, mais condução, mais pressa.

A pergunta que me interessa é anterior: o que a contração está encontrando no sistema nervoso daquela mulher? Antes de escolher o recurso, vale aprender a ler o estado em que ela está. É o que proponho neste texto.

1. A dor não depende só da contração

O parto fisiológico depende de um equilíbrio entre os ramos simpático e parassimpático do sistema nervoso autônomo e de uma cascata hormonal sensível ao ambiente. A ocitocina é especialmente sensível à adrenalina: em um contexto de medo, insegurança ou ameaça percebida, a atividade simpática se eleva e a ocitocina e as endorfinas, que andam juntas, tendem a ser menos eficazes (BUCKLEY, 2015).

Há uma consequência prática. Quando a produção endógena não "decola", abre-se caminho para a ocitocina sintética e, em seguida, para a analgesia. A ocitocina infundida produz contração, mas atravessa pouco a barreira hematoencefálica e, por isso, não reproduz os efeitos centrais da ocitocina endógena, entre eles o feedback que favorece a liberação de endorfinas. A dor tende a aumentar, e a sequência de intervenções se retroalimenta.

Esse raciocínio dialoga com a hipótese clássica de Dick-Read: medo gera tensão, e tensão gera dor.

2. O ritmo contração–pausa como unidade de leitura

Cada contração pode ser entendida como um ciclo. Na ascensão, o predomínio simpático aumenta a rigidez do músculo uterino e reduz fisiologicamente a oferta de oxigênio, e o metabolismo se desloca para a via anaeróbica, com produção de lactato. Na pausa, o retorno do parassimpático permite reoxigenar o músculo e eliminar o metabólito acumulado.

É na pausa, e não no pico, que o corpo recupera as condições para a próxima contração. Por isso a qualidade das pausas é um dos melhores marcadores de regulação que temos à beira do leito.

3. Sinais de regulação

Na minha observação clínica, o trabalho de parto bem regulado costuma seguir uma regressão progressiva:

  • na linguagem, de frases elaboradas para frases curtas, depois palavras soltas e, por fim, apenas sons;

  • na postura, de ereta e comunicativa para curvada, até uma posição mais recolhida, de olhos fechados.

Essa regressão acompanha uma passagem do funcionamento cortical para um estado mais instintivo. Ela não é sinal de que o parto "empacou". Também reconheço um estado de entrega entre as contrações, em que o corpo fica completamente solto. Usamos o termo informal "flopar" para descrevê-lo.

Erro frequente: interpretar essa calma como lentidão e interromper, seja conversando, tocando ou reavaliando fora de hora, ou até pedindo que a mulher tire os fones de áudio. Sempre que o bem-estar materno-fetal estiver preservado, esse é o estado que mais vale proteger. A vigilância clínica continua, e o que muda é o modo de fazê-la.

4. Sinais de desregulação

Fique atento a:

  • pausas sem relaxamento real, em que o útero já relaxou, mas a mulher segue tensa ou agitada;

  • dor percebida já no início da contração, antes de o pico se estabelecer;

  • sudorese, náusea ou despertar fora de hora;

  • dificuldade ou resistência para mudar de posição;

  • dor à palpação leve do segmento inferior, mesmo fora do pico.

Este último sinal é uma observação do método PRADA, e a hipótese é de acúmulo de lactato quando a pausa não basta para a recuperação. Trato-o como indício clínico, não como critério validado em estudos controlados.

5. O que fazer com o que você leu

O método PRADA organiza a resposta em cinco movimentos que se repetem ao longo do trabalho de parto:

  1. Proteger o ambiente. Luz, som, privacidade, objetos familiares e presença negociada da equipe.

  2. Reconhecer os sinais de regulação ou desorganização. Postura, linguagem, qualidade das pausas, hipervigilância ou inibição neocortical.

  3. Ativar o parassimpático. Comece pelo mais leve: expiração longa, vocalização grave, balanço corporal, toque suave e movimento rítmico.

  4. Desativar o simpático. Se a gestante já estiver em nível avançado de desorganização (hipervigilante, agitada), use estratégias como compressa ou água fria/gelada no rosto para ativação mais initensa do nervo vago.

  5. Ativar o sistema de comporta. Se a dor continuar alta, use contra-estímulos mais intensos, como massagem firme, pressão sacral, calor, TENS ou injeção de água estéril. Esses recursos também provocam um pequeno estímulo simpático, então entram com critério, e não como primeira resposta.

A ordem importa. Recursos de maior intensidade aplicados cedo demais, ou no momento errado, podem atrapalhar a fisiologia que se queria ajudar. Assim que a mulher se reorganizar, volte e mantenha os itens 1 e 2. E o mais importante: se ela estiver regulada, calma e dentro do seu mundo, não faça nada a não ser os mesmos itens 1 e 2.

6. Um lembrete sobre corregulação

O estado de quem cuida também comunica. Um profissional ou acompanhante tenso, com voz acelerada e respiração curta, sinaliza risco à mulher mesmo em silêncio. A autorregulação de quem cuida é pré-requisito da regulação de quem pare. Por isso, o primeiro movimento do método começa em você: respire antes de intervir. Sinta seus pés no chão e faça 3 perguntas: a gestante está regulada? o que minha intervenção pode trazer de estímulo para o cortex racional (qual o custo)? a intervenção que proponho é para ela ou para a minha própria ansiedade? E então tome a decisão mais oportuna.

Aprofunde

Na masterclass gratuita "A nova abordagem PNE na assistência ao parto", apresento as bases da Psiconeuroendocrinologia do parto e como ler esses sinais na prática. Você recebe os slides completos em PDF ao se cadastrar no site. Para quem quer ir além, a Formação em Facilitação do Parto e Controle da Dor organiza esses conteúdos em quatro módulos, com o método PRADA aplicado à assistência real.

Referências

BUCKLEY, S. J. Hormonal Physiology of Childbearing: Evidence and Implications for Women, Babies, and Maternity Care. Washington, DC: Childbirth Connection, 2015.

DICK-READ, G. Childbirth Without Fear. (Edição brasileira: Parto sem medo.)