Hipnoparto: hipnose para alívio da dor no parto

Nascentia   •   Março, 2017

O parto é uma experiência humana universal. Ainda assim a vivência pode ser muito diferente nas diversas sociedades e culturas. Ao longo do tempo, também se percebe percepções diferentes acerca do parto.

Na sociedade ocidental, especificamente, o parto é fortemente associado à dor e ao perigo, enquanto que em outras sociedades o parto é visto como um evento natural e simples. Naquela temos aprendido que o parto é uma provação terrível e nessa, que o parto pode ser um evento confortável e até prazeroso.

Na nossa sociedade o parto é visto como um evento potencialmente instável e arriscado e que necessita de um ordenamento médico e hospitalar. E a medicina moderna oferece inúmeras drogas para o controle da dor e manobras e intervenções para reduzir o perigo eminente. Em outras culturas, as mulheres precisam apenas de informação, preparo e relaxamento.

Devido à globalização ou simplesmente por necessidade da mulher moderna em resgatar a essência e natureza do parto e do nascimento, a visão e a percepção acerca do parto têm mudado muito ao longo das últimas décadas. As mulheres ocidentais modernas estão em busca de informação e preparo, e, além disso, de uma maior proximidade com seu corpo.

Atualmente podemos encontrar diversos cursos de gestantes trazendo muitas informações para gestantes e pais com o intuito de reduzir a ansiedade através da educação acerca do processo fisiológico do parto. Entretanto, muitos cursos acabam por reforçar essa visão de que para parir precisa-se de aparatos tecnológicos e de controle do profissional especializado para que o evento aconteça com segurança.

Esses momentos de preparação devem ser focados principalmente no potencial inato das mulheres em gerar e parir. Devem ser apoiados em um tripé de metas: conhecimento/informação, treinamento psicofísico (recondicionamento neuromuscular) e treinamento psicoafetivo/conectivo (meditação, yoga, hipnose, etc.). Esse é o “método de aprendizado” proposto pela presente oficina:

O ensino sobre o processo da fisiologia do parto tem como objetivo reforçar a confiança da mulher em seu corpo, na sua habilidade em parir, partindo da racionalidade (muito importante nos dias de hoje). O treinamento psicofísico permite a reaproximação da mulher com seu próprio corpo, favorecendo a aceitação e a confiança nos processos fisiológicos e programados pelo seu cérebro (como o processo parturitivo). O treinamento psicoafetivo visa o contato e diálogo (sugestões) com a mente subconsciente com o objetivo de modular as percepções de medo, insegurança e dor.

É nesse contexto de busca pela conexão da mulher com seu corpo, sua mente e sua essência, que a percepção da vivência do parto pode ser transformada, repensada e ressignificada, entre as mulheres ocidentais. O perigo, a dor e o sofrimento poderão dar lugar a novas conexões cerebrais e ao uso de recursos psíquicos de relaxamento e confiança profundos que podem mudar a experiência do parto e nascimento.

Um desses recursos psíquicos que dispomos é a hipnose, uma técnica que atualmente requer certo treinamento porque nos distanciamos das conexões primitivas e naturais devido à nossa herança cultural imediatista, medicalizada e desconectada.

E o que é a Hipnose?

A hipnose pode ser definida como um estado de consciência “alterado” pelo qual você se concentra tão intensamente que sua mente subconsciente se torna altamente receptível às sugestões e apta a se desligar de distrações (CONKLIN, 2002). Nesse estado de concentração altamente focada você usa o poder de sua mente para alterar sua percepção de ansiedade, medo, pânico, dor, incluindo o medo e a dor do parto. É um recurso para desencadear um nível de consciência por meio do relaxamento e da sugestão, visando contornar a mente racional e crítica, e acessar o subconsciente não racional e mais sugestionável (The Mongan Method).

Este estado de consciência (conhecido como “transe hipnótico”) se assemelha ao estado de quando estamos sonhando acordada. Nesse estado, a frequência das ondas cerebrais são aquelas denominadas de alfa. Você está desperta e consciente do seu redor, mas totalmente concentrada, onde os ruídos e as distrações são filtrados e desconsiderados.

A hipnose como método de controle da dor no parto tem sido sugerida desde 1820 e seu uso sofreu variações, ao longo dos anos, de acordo com as tendências das práticas médicas. E atualmente, aparece como um excelente recurso alternativo para a analgesia ou anestesia e seus efeitos deletérios. Em 1930 foi oficialmente utilizado para uso no parto, pela primeira vez, pelo Dr. Joseph DeLee. E nos últimos 50 anos, vários estudos têm sido realizados sobre o tema.

Por que eu preciso de Hipnose?

Com a hipnose você pode aprender a trabalhar com seu subconsciente e atingir seus objetivos, como por exemplo, reduzir a percepção dolorosa do parto e diminuir a chance de precisar de uma analgesia ou simplesmente retardar o seu uso, ou ainda atingir um efeito de anestesia sem o uso de drogas. Esse é o objetivo do treinamento e do hábito da prática da hipnose ou da auto-hipnose.

O mais recente Relatório de Recomendação do Ministério da Saúde (Diretrizes para o Parto Normal, 2016) indica a hipnose do parto como estratégia de manejo não farmacológico da dor no parto, de acordo com revisões sistemáticas de alta qualidade (baixo risco de viéses). A conclusão dos estudos mostrou que a Hipnose no parto “reduziu significativamente o uso de métodos farmacológicos de alívio da dor [analgésicos, anestésicos] e a necessidade de ocitocina”.

Dessa maneira, o uso da hipnose pode ser uma ferramenta simples e eficaz que evita ou retarda a necessidade de medicalização (e suas possíveis repercursões) para aliviar o desconforto e a dor no parto. Além de prevenir o cansaço, a fadiga e a exaustão muscular e física no trabalho de parto. Controlar o medo e a ansiedade também fazer parte do rol de benefícios desse recurso.

Qual a diferença do treinamento em hipnose para outros treinamentos de preparação para o parto e para a meditação?

A hipnose, assim como outros métodos de preparação para o parto, envolve treinamento em relaxamento, respiração consciente, controle de ansiedade, uso de visualização e sugestão para lidar com a dor, no caso aqui. Mas a hipnose permite também você entrar num estado de transe semelhante ao sonho sempre que você escolher e permite uma comunicação com sua mente subconsciente.

Pode parecer que a hipnose seja um tipo de meditação. Na verdade, em ambas as práticas, seu cérebro entra numa mesma frequência de ondas alfa, a mesma de quando estamos fantasiando (imaginando) ou “sonhando acordada”. Mas existe uma diferença importante entre elas. Na meditação, você repete uma palavra ou mantras. Na hipnose você introduz uma mensagem ou uma sugestão para atingir um objetivo específico. Por exemplo, você pode sugerir a alteração de comportamento ou de percepção, se seu objetivo for parar de fumar ou controlar a dor. Na hipnose você também busca recursos internos para a transformação ou a cura.

Como funciona a hipnose para o parto?

Para se atingir o “transe” hipnótico ou a consciência focada, existe um preparo para os iniciantes na prática. Antes da prática propriamente dita, é necessário que haja uma permissão ou liberação da mente consciente. Atualmente é essa mente que é mais ativada. Por isso é a primeira barreira a ser quebrada. Para isso, iniciamos com um tipo de “alimentação” da mente consciente e racional, oferecendo informações sobre o processo fisiológico do parto e processos mentais do medo e da confiança, bem como reforçando os recursos disponíveis (incluindo a medicina e tecnologias) para controle e segurança do evento parto. Assim, há uma acomodação da mente consciente facilitando os próximos passos. A confiança (no corpo e no processo) já está sendo semeada nessa etapa também.

Em seguida, realizam-se exercícios de relaxamento e respiração conscientes com intuito de reduzir a atividade racional (bem ativada na etapa anterior) e desviar para a consciência corporal. O objetivo é desviar o foco da mente consciente para a mente subconsciente através de técnicas de modulação ou cadenciamento (repetição/monotonia) que preparam para a indução hipnótica. Esse passo se parece com o que fazemos com bebês quando os ninamos com o intuito de acalmá-los e de fazê-los dormir.

Em determinado momento, atinge-se o “transe hipnótico”, um estado de relaxamento profundo e consciência focada. Sua respiração está mais calma, seus músculos relaxados, sua mente livre de distrações ou outras atividades racionais frenéticas. Aqui, encontramos um terreno fértil para modulação das percepções (medo, insegurança, dor etc.) e para recepcionar sugestões diretas ou indiretas (confiança, calma, relaxamento, conforto, etc.). Nesse lugar, estabelecemos um diálogo com nosso subconsciente, através de metáforas (linguagem da nossa mente sub e inconsciente).

A condução e indução do estado hipnótico, bem como as sugestões e modulações, podem ser direcionadas por um terapeuta ou por você mesma (auto-hipnose). No início pode ser difícil acompanhar e permanecer em cada nível de relaxamento e transe hipnótico. Nossa mente consciente tenta a todo o momento retomar seu estado ordinário. Mas com treinamento e insistência, você terá mais facilidade e poderá entrar e sair do transe hipnótico em segundos.

A grande vantagem dessa prática é regular nossas atividades mentais, desarmando o constante “sistema de alerta”, e conexão com nosso corpo sensível, afetivo e instintivo. Uma questão de novo hábito.

Como a hipnose ou auto-hipnose pode ajudar a controlar a dor no parto?

A dor do parto como qualquer outra dor é controlada pelo cérebro. Ensinando sua mente e seu corpo a aceitar e acolher as contrações uterinas (aqui denominadas metaforicamente de “ondas do parto”), você pode reinterpretar a dor (aqui modificada para “sensação”).

As metáforas são as principais ferramentas para mobilizar e transformar as conexões cerebrais. Nosso cérebro registra as emoções e pensamentos e então entra no modo “cumprir tarefas”. Há um tipo de planejamento ou caminho mental para que aquele pensamento (imagem ou ideia) se torne realidade. E como nosso cérebro registra um pensamento de cada vez, então é uma boa ideia, com perdão do trocadilho, escolher bem o que se pensa e o que se imagina. No treinamento em hipnoparto usamos isso a nosso favor.

Para entender melhor: a mente inconsciente não diferencia o que real e o que é imaginação. Dependendo da intensidade e da frequência de um pensamento/ideia/imaginação, a mente interpreta como real e as respostas corporais (física, afetiva e mental) são acionadas de acordo com eles. Se pensamos constantemente, por exemplo, que parto é perigoso, que as contrações são insuportáveis, que eu não vou dar conta, etc., essa é a mensagem, o plano, a ordem para nosso cérebro. Conexões são estabelecidas, e a todo tempo reforçadas. E então, organiza-se um “sistema de alarme”. E quando chegam o parto e as contrações, o sistema é acionado! O perigo registrado! E seu corpo entra no modo LUTE-FUJA-CONGELE! O famoso ciclo MEDO-TENSÃO-DOR se torna, muitas vezes, um caminho sem volta. E, pela mesma lógica, se pensamos e imaginamos de outra forma, como por exemplo: parto é um processo fisiológico, onde nosso cérebro foi programado para funcionar (como respirar enquanto dormirmos), um momento de transformação, entre outras ideias. E que as contrações chegando é hora de respirar, relaxar, concentrar, vocalizar, curtir, sentir prazer, entre outras ideias (comandos escolhidos por cada pessoa), é nesse formato, que seu cérebro e sua mente vão trabalhar! Se as visualizações (outro recurso para “enganar” ou “educar” o cérebro) são frequentes, quando chegar o momento, os comandos serão acionados automaticamente. Seu cérebro e sua mente vão entender assim: “Ah! De novo isso, já sei como fazer!”

Assim, as imagens e metáforas (linguagem da mente subconsciente ou inconsciente) fazem parte do rol de ferramentas para estabelecer novas conexões neuromotoras, saudáveis e mais apropriadas para um parto mais gentil, suave e prazeroso.

Existe algum risco na hipnose? É perigoso ficar “presa” no estado de hipnose ou ser subjugada?

Existem muitos mitos acerca da hipnose. Não se trata aqui de hipnose de palco, como conhecemos. O hipnoparto é um transe leve a moderado e um relaxamento moderado a profundo. Você fica acordada e consciente do ambiente, mas capaz de filtrar e desconsiderar os barulhos ou outras distrações e até desconfortos ou inconvenientes. E nesse estado você está bem receptiva a sugestões de modulação ou modificação da percepção da dor e do medo, por exemplo. Mas em hipótese nenhuma você fará aquilo que não tem vontade. A hipnose funciona para ajudar naquilo que você deseja realizar.

No parto (como na gestação ou em qualquer outro momento da nossa vida), esse estado pode acalmar, reduzir medo e ansiedade, controlar a dor e a tensão.

Importante salientar que, da mesma forma que a mulher se prepara para ser ativa durante o trabalho de parto e parto, a hipnose também a apoiará nesse papel, pois ajudará a relaxar e trabalhar com seu corpo durante o processo natural. Então não se trata aqui de uma técnica onde a mulher se encontra passiva ao processo e às intervenções dos profissionais e interferências do ambiente. É uma atividade ativa também, só que numa dimensão mais internalizada e conectada com sua essência.

Como saber se funciona comigo?

Esse estado de transe não é novidade para nenhum de nós porque é um estado de consciência que costumamos entrar espontaneamente. Quando dirigimos e não lembramos como passamos pelo trajeto e chegamos até o trabalho, ou quando ficamos parados olhando para o café na xícara e estamos com a mente longe e não estamos de maneira nenhuma observando o café. Quando imaginamos algo acontecendo (uma viagem ou um projeto sendo realizado) também estamos num estado de transe. Entramos em transe varias vezes por dia. As ondas cerebrais formadas nessas situações são as mesmas formadas no estado hipnótico. Nossa mente conhece esse estado e usamos naturalmente.

Na técnica do Hipnobirthing (Mongan Method), é defendido que a hipnose é eficaz para todos que desejam ser hipnotizados e em condições apropriadas. E que não se pode determinar quem é “bom cliente”. Mas sugere os que são mais susceptíveis (pessoas com crença na técnica, com experiência anterior positiva, que trabalham com ocupação monótona, os que estão acostumados a receber ordens, etc.) e os menos susceptíveis (pessoas muito racionais, cientistas, matemáticos, advogados, pensadores, os defensores de protocolos médicos, etc.) para a efetividade da técnica.

Como posso conhecer e treinar a hipnose no parto?

A Nascentia promoverá, periodicamente, um workshop de Terapias Integrativas de controle da dor no parto e Hipnoparto para introduzir o tema e a técnica. Nesse encontro serão revisadas as principais técnicas de relaxamento, respiração, vocalização e consciência corporal, permissão afetiva, importantes para compreender e executar os passos do hipnoparto.

Para as interessadas em aprofundar na experiência do hipnoparto, serão programadas turmas de treinamento conhecidas como “Conexão Primal para o Parto”, onde serão aprofundadas as buscas pela essência primitiva da nossa habilidade em parir e de se conectar com o nosso corpo feminino. Saiba Mais.

Quando e onde?

Agenda 2017

Workshop para gestantes (turmas bimestrais):

Período:
17 de março 14h às 18h (momento teórico)
e 18 de março 9h às 12h (momento prático)
Investimento:
R$ 100,00 (não clientes Nascentia)
R$ 80,00 (clientes Nascentia)

Workshop para profissionais (turmas bimestrais):

Período:
14 de abril 14h às 18h (momento teórico)
e 15 de março 9h às 12h (momento prático)
Investimento: R$ 120,00

Local: Espaço Nascentia Park Sul – The Union Office, SMAS trecho 3, Bloco B, sala 212.

Informações:
adm@nascentia.com.br

Inscrições:

Descrição do Workshop

A Oficina de Terapias Integrativas para controle da Dor no Parto será realizada em dois momentos. No primeiro momento será abordada a fundamentação teórica da fisiologia da dor e do medo. Ainda no primeiro encontro, haverá simulação da dor e experimentação das técnicas corporais conscientes para alívio da dor e facilitação do parto. No segundo encontro, será focado no processo mental e corporal da hipnose e será realizada uma prática de indução hipnótica para o parto (facilitação e modulação da dor).

Saiba mais

Referências:

CONKLING,W. (2002). Hypnosis for a joyful pregnancy and pain-free and delivery. 1st US. Ed.
THE MARIE MONGAN METHOD.

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Por | 2017-08-11T22:35:41+00:00 2 de Março de 2017|Artigo|