A história por trás da história #1
O parto que mudou minha forma de cuidar e inspirou Evelyn
Ayla Rowan (Lis)
11/4/20262 min read


"Eu não vou para o hospital. Tenho uma enfermeira obstetra aqui dentro de casa."
Foi assim que uma gestante, em trabalho de parto, me colocou diante de uma das experiências mais inesperadas da minha vida.
Na primeira gestação, ela havia escolhido uma cesariana eletiva. Tinha medo da dor, de não dar conta, dos riscos do parto vaginal. Medos que nossa cultura tantas vezes alimenta.
Mas aquela experiência deixou marcas profundas.
Na sala de cirurgia, foi colocada em uma posição inadequada. O resultado foi uma dor tão intensa no pós-parto que seu corpo travou. Os analgésicos não traziam alívio.
Impotente, assistiu aos procedimentos dolorosos realizados em sua filha recém-nascida, no hospital, com poucas horas de vida e por mais dois dias. Não conseguiu amamentar. E essa foi outra dor.
Na segunda gestação, aos sete meses, assistiu a um documentário sobre violência obstétrica e neonatal. Chorou do início ao fim.
Antes dos créditos finais, havia decidido: não passaria por aquilo novamente.
Contratou uma equipe para um parto domiciliar. Mas, quando o trabalho de parto começou, a equipe estava atendendo outro nascimento.
Foi então que ela olhou para mim e disse:
“Você vai receber seu sobrinho.”
Sim. Aquela mulher era minha irmã.
E ali estávamos nós, duas irmãs, diante de um nascimento que mudaria muito mais do que aquele dia.
Eu já era enfermeira obstetra. Conhecia os protocolos, os procedimentos, a responsabilidade de cuidar. Mas foi naquele parto que compreendi algo que nenhum livro havia conseguido me ensinar daquela maneira: o significado de estar verdadeiramente ao lado de uma mulher.
Não à frente dela. Não decidindo por ela. Ao lado.
Naquele dia, não nasceu apenas meu sobrinho. Nasceu também minha paixão por um modelo de cuidado que respeita a mulher, sua voz, seu corpo e suas escolhas.
Anos depois, quando comecei a escrever O Livro de Horas de Evelyn Stanton, percebi quanto daquela parteira estava presente na minha protagonista.
Evelyn viveu quase um século antes de mim, quando mulheres precisavam lutar para serem ouvidas até nos momentos mais íntimos de suas vidas.
Mas a inquietação que a move é muito parecida com a que nasceu em mim naquele dia.
Talvez por isso eu tenha precisado escrever sua história.
Porque, antes de Evelyn, existiram mulheres reais que me ensinaram o verdadeiro significado de cuidar.
E uma delas era minha irmã. ❤️
A história por trás da história
Esta é uma das memórias reais que encontraram lugar em O Livro de Horas de Evelyn Stanton. Para mim, Evelyn não nasceu apenas da imaginação: ela também nasceu das mulheres que conheci, das histórias que ouvi e das experiências que transformaram minha maneira de enxergar o cuidado.
Compartilho este relato primeiro com vocês para conhecerem a história por trás da história.
O manuscrito está em fase de revisão. A previsão é que ele seja lançado no início do próximo ano.
Obrigada por estarem aqui e por acompanharem não apenas o livro pronto, mas também os caminhos, as lembranças e as perguntas que deram origem a ele.
Com carinho,
Ayla Rowan (pseudônimo usado, e aqui tem outra história por trás).
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